16 setembro 2008

Oligarcas armam e financiam terroristas na Bolívia. A midia grande, marrom e balofa cala.

13/09/2008 |
Altamiro Borges - Blog de Altamiro Borges

"Se precisar, vai ter sangue. É preciso conter o comunismo e derrubar o governo deste índio infeliz". Jorge Chávez, líder da oligarquia racista de Tarija.

"Não vejo razão pela qual se deve permitir o Chile se tornar marxista pela irresponsabilidade de seu povo". Henry Kissinger, secretário de Estado do EUA, poucos dias antes do golpe de 11 de setembro de 1973 que derrubou Salvador Allende.

É repugnante a cobertura que o grosso da mídia hegemônica tem dado aos trágicos confrontos na já sofrida Bolívia. Os serviçais da TV Globo tratam os chefões golpistas como "líderes cívicos" e "dirigentes regionais". Mirian Leitão, que esbanjou valentia ao sugerir que o governo brasileiro retirasse o nosso embaixador de La Paz e enviasse tropas às fronteiras quando da estatização do petróleo, agora é toda afável com a oligarquia racista deste país. Outros "colunistas" bem pagos da mídia chegam a insinuar que a culpa pelos violentos conflitos, que já causaram oito mortes, é do presidente Evo Morales, "um radical e populista" que instigou o separatismo regional.

A manipulação é grotesca até na terminologia. No caso das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que há décadas enfrentam as oligarquias paramilitares e que foram excluídas violentamente da luta institucional no país, os guerrilheiros são estigmatizados como terroristas, narcotraficantes, bandidos.

Já os bandos terroristas da Bolívia, organizados e armados pela elite racista que desrespeita o voto popular, são tratados como "comitês cívicos" e "grupos rebeldes". O embaixador estadunidense Philip Goldberg, que acaba de ser expulso da Bolívia por estimular abertamente a divisão do país, é apresentado pela mídia subserviente como "negociador".

A triste lembrança do Chile

O que está em curso na Bolívia é um golpe fascista organizado pela oligarquia local e teleguiado pelos EUA.

Seus métodos terroristas lembram o ocorrido no Chile, em setembro de 1973, noutro golpe sangrento orquestrado pelo "império do mal". Visam desestabilizar e derrubar o governo democraticamente eleito de Evo Morales, confirmado em agosto num referendo. Poucos são os veículos midiáticos e os "colunistas" que denunciam esta conspiração, talvez porque torçam pela derrota do que FHC chamou num paper ao governo Bush de "esquerdização da América Latina".

Como verdadeiro "partido da direita e do capital", a mídia burguesa não tolera a democracia!

Uma das raras exceções foi o lúcido artigo de Clóvis Rossi, que há muito estava adormecido por seu rancor antiesquerda. "O que está em andamento na Bolívia é uma tentativa de golpe contra o presidente Evo Morales. Segue uma linha ideológica e táticas parecidas as que levaram ao golpe no Chile, em 1973, contra o governo de Salvador Allende, tão constitucional e legítimo quanto o de Evo Morales. Os bloqueios agora adotados nos Departamentos são uma cópia dos locautes de caminhoneiros que ajudaram a sitiar o governo Allende... Nem o governo nem a oposição no Brasil têm o direito ao silêncio", escreveu, relembrando sua perspicácia e coragem do passado.

O criminoso Philip Goldberg

A conspiração golpista na Bolívia, acobertada pelo grosso da mídia nativa, exige rápida resposta das forças progressistas e democráticas do Brasil. Como afirmou Evo Morales, trata-se de "uma violência fascista com o objetivo de acabar com a democracia e dividir o país". Sob o biombo da autonomia regional, governadores de cinco departamentos (estados) e abastados empresários têm financiado bandos terroristas que já assassinaram oito camponeses favoráveis ao governo eleito, saquearam prédios públicos, destruíram uma emissora estatal de televisão, sabotaram gasodutos, bloquearam rodovias e proibiram o próprio presidente de pousar em três aeroportos do país.

Segundo relatos de Marco Aurélio Weissheimer, da Carta Maior, na semana passada "grupos de jovens de setores da classe média branca, que não escondem seu sentimento racista em relação a Evo Morales, lideraram as manifestações. Capitaneados pela União Juvenil Cruzense (UJC), eles invadiram o prédio da empresa estatal de telecomunicação para 'entregá-lo à administração do governo Rubén Costas', de Santa Cruz. Na Televisión Boliviana/Canal 7, saquearam o escritório, destruíram computadores e fizeram uma fogueira na entrada do prédio". Além de Santa Cruz, as ações terroristas ocorrem em outros quatro departamentos – Beni, Pando, Tarija e Chuquisaca.

Os EUA estão diretamente metidos no complô. O embaixador Philip Goldberg já foi fotografado em eventos da União Juvenil Cruzense (UJC), grupo terrorista de Santa Cruz que utiliza o slogan "terminemos com os 'collas' [indígenas], raça maldita". A embaixada ianque até contratou vários destes bandidos. Goldberg é um fascista convicto. Como embaixador dos EUA na ex-Iugoslávia, ele orquestrou a crise no Kosovo e a sangrenta guerra civil separatista naquele país. Declarado persona non grata, ele finalmente foi expulso da Bolívia. "Não queremos aqui gente separatista, divisionista, que conspira contra a unidade do país", justificou o presidente Evo Morales.

Intensificar a solidariedade internacionalista

O governo, mesmo aberto ao diálogo, não tem se submetido à pressão dos golpistas, que exigem a anulação da nova Constituição e do referendo que aprovou a manutenção do mandato de Evo Morales. Ocorrido em 10 de agosto, por demanda da própria oposição, o referendo confirmou a força do atual presidente. Evo foi ratificado em 95 das 112 províncias do país e, apesar do caos promovido pelos golpistas, teve mais votos do que na eleição presidencial – obteve 67,41% dos votos, bem acima dos 53,3% em 2005. Sua votação cresceu em oito dos nove departamentos e o referendo ainda revogou o mandato de dois governadores ligados às oligarquias racistas.

Desesperada, a elite investe no terrorismo e esbarra na resistência do governo e do povo. "Vamos agir com serenidade, mas também com firmeza", diz Alfredo Rada, ministro da Defesa. Walker Sam Miguel, ministro do Interior, garante que "os fascistas não passarão". O governo já decretou estado de sítio, ameaça deter os chefes terroristas e acionou tropas do exército nos departamentos para garantir o fornecimento de gás e a ordem pública. A derrota dos fascistas, porém, exige o apoio dos governos e dos movimentos sociais na América Latina. O que está em jogo é o avanço da democracia, é a derrota das oligarquias, do "império do mal" e da mídia mentirosa.

15 setembro 2008

Crônica de uma outra morte anunciada... na vida real e no Amapá

Sindicalista sofre atentado e busca apoio no Rio e em Brasília. Entrevista coletiva nesta terça-feira (16), no Centro do Rio de Janeiro, irá expor denúncia sobre desrespeito aos direitos humanos em Macapá.
Joinville Frota, presidente do Sindicato dos Rodoviários do Amapá (Sincottrap), está jurado de morte por sua atuação junto ao movimento social local. Sua residência foi incendiada no último 23 de agosto de madrugada, com toda a família presente.

...Por Gustavo Barreto - Jornalistas Populares - 15/09/2008

Pela segunda-vez este ano, o sindicalista Joinville Frota e sua família sofreram um atentado. Presidente do Sindicato dos Condutores de Veículos e Trabalhadores em Empresas Transportes Rodoviários de Passageiros do Amapá (SINCOTTRAP), Joinville teve sua residência queimada por criminosos na madrugada do último dia 23 de agosto. Os autores atiraram uma garrafa contendo gasolina, em chamas, na residência de Joinville, que é de madeira. Toda a família do sindicalista estava dormindo. Felizmente ninguém se feriu.

Apenas em 2008, já é a segunda vez que Joinville Frota teve sua vida ameaçada frontalmente. Além dos ataques, ele conta que sofre ameaças também por telefone. Em 2003, a sede do sindicato que Joinville preside já havia sido incendiada. Atualmente, sua família está em um local seguro, não revelado por segurança.

Após um período de lentidão dos poderes locais em investigar os acontecimentos, Joinville decidiu pedir apoio a entidades sindicais e jurídicas e ir para o Rio de Janeiro e para Brasília, em busca de apoio. Advogados do Instituto de Defensores dos Direitos Humanos (DDH) entraram no caso e estão assessorando Joinville na busca de uma solução. "Todas as tentativas, se consumadas, com certeza teriam impedido que o mesmo continuasse exercendo o mandato que recebeu dos trabalhadores, na luta por melhores condições de trabalho dos rodoviários do Amapá. Trata-se, portanto, de uma afronta a todo o movimento sindical e popular, independente de suas divergências".

Agenda para cobrar justiça e proteção

Joinville conversou nesta segunda (15) à tarde com o advogado João Tancredo, do Conselho Deliberativo do DDH, para expor o caso. À noite, às 19h, participa de reunião na sede do Grupo Tortura Nunca Mais (GTNM) Rio.

Nesta terça-feira, dia 16 de setembro, Joinville realiza entrevista coletiva para a imprensa, às 11h, na sede do DDH (Rua do Ouvidor, 50 – 5 andar). Para mais informações, telefone para 2215-0590. Estão confirmadas as presenças do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ) e do advogado João Tancredo, membro do DDH e ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB.

Na quarta-feira, dia 17, Joinville se encontra com o Ministro da Justiça, Tarso Genro, em Brasília, para reivindicar uma solução. Genro já foi notificado pelo DDH no dia 26 de agosto, mas sem resposta.

Crime ainda não tem suspeitos

Os autores da denúncia afirmam que não têm condições de apontar os suspeitos que executaram o crime ou mesmo os nomes e procedência de seus mandantes. "Cabe ao Estado investigar, prender e apresentar os culpados à sociedade, responsável institucionalmente que é por estas atribuições, em face das denúncias apresentadas", afirmam os advogados do DDH.

Joinville Frota também está concorrendo a cargo eletivo no município de Macapá. Por ser suplente de um deputado, Joinville pode se tornar deputado estadual caso o titular da vaga entre na Prefeitura. "Considerando se tratar de período eleitoral, a responsabilidade pela condução da apuração dos responsáveis deve ser federal, conforme ponto de vista que já foi externado às autoridades da Justiça Eleitoral, tanto no Estado do Amapá como em Brasília", argumentam os advogados do DDH.

"É o mínimo que o Estado de Direito pode fazer neste momento, além de continuar apurando e finalmente descobrir quais foram os criminosos e conduzi-los finalmente ao devido julgamento", afirmam.

Confira trecho da carta às autoridades e sociedade civil, de Aderson Bussinger, Secretário-Geral do DDH, advogado e Conselheiro da OAB/RJ:



"(...) Em visita ao Amapá, nos dias 11 e 12 de setembro, em nome do DDH – Instituto dos Defensores dos Direitos Humanos, na condição de seu Secretário-Geral, nos dirigimos às autoridades federais no Estado e reiteramos pedido de providências, ante a gravidade do fato, de modo que seja efetivamente protegida a vida de Joinville Frota. Estes mesmos apelos já o fizemos ao Exmo. Ministro da Justiça, Dr. Tarso Genro, que nos recebeu e despachou ofício em 26 de agosto orientando providências.

"Desejamos acompanhar o que de fato está sendo feito, à par da determinação do Senhor Ministro, bem como buscar sensibilizar todas as autoridades, sociedade civil, OAB, Igrejas, OIT, entidades internacionais de defesa dos direitos humanos, para esta situação de risco para sua vida no Amapá devido a tudo o que já ocorreu e que ora relatamos.

"Consignamos que se trata de uma questão que transcende a própria defesa de Joinville Frota e coaduna-se com preocupação de diversos setores democráticos no Brasil e no exterior sobre as ameaças e ataques que vêm sofrendo o movimento social brasileiro e na América Latina no último período, bem como a tentativa de alguns setores de também criminalizar a atuação sindical e popular, como fazia o regime militar em relação a quem discordava de seu projeto autocrático. Por esta razão, será realizado em Brasília, nos próximos dias 21 e 22 de outubro, um Seminário Nacional sobre Criminalização dos Movimentos Sociais, na sede do Conselho Federal da OAB, em parceria com Associações Nacionais de Juízes do Trabalho, Juízes Federais, Ministério Público Federal e entidades sindicais como a CUT e a CONLUTAS, a fim de debater este importante tema e propor soluções.

"É justamente neste contexto que denunciamos os atentados sofridos por Joinville Frota, no âmbito da luta geral pela efetivação dos Direitos Sociais e Fundamentais contidos no corpo da Constituição Federal do Brasil que completa 20 anos. É também no cenário do registro dos 60 anos da Declaração dos Direitos Humanos, que convocamos todas as entidades democráticas do Amapá, no sentido de que unam esforços para proteção de sua vida e o direito de Joinville continuar lutando pelos interesses dos trabalhadores que representa.

"Contra a criminalização dos movimentos sociais! Pela liberdade sindical e efetiva garantia dos direitos humanos e sociais!
Proteger a vida de Joinville Frota!

http://www.renajorp.net/

11 setembro 2008

Carta a banqueiros e financistas

Prezados Senhores,


Gostaria de saber se os senhores aceitariam pagar uma taxa, uma pequena taxa mensal, pela existência da padaria na esquina de sua rua, ou pela existência do posto de gasolina ou da farmácia ou da feira, ou de qualquer outro desses serviços indispensáveis ao nosso dia-a-dia.
Funcionaria assim: todo mês os senhores, e todos os usuários, pagariam uma pequena taxa para a manutenção dos serviços (padaria, feira, mecânico, costureira, farmácia etc). Uma taxa que não garantiria nenhum direito extraordinário ao pagante.
Existente apenas para enriquecer os proprietários sob a alegação de que serviria para manter um serviço de alta qualidade.
Por qualquer produto adquirido (um pãozinho, um remédio, uns litros de combustível etc) o usuário pagaria os preços de mercado ou, dependendo do produto, até um pouquinho acima. Que tal?
Pois, ontem saí de seu Banco com a certeza que os senhores concordariam com tais taxas. Por uma questão de equidade e de honestidade.
Minha certeza deriva de um raciocínio simples. Vamos imaginar a seguinte cena: eu vou à padaria para comprar um pãozinho. O padeiro me atende muito gentilmente. Vende o pãozinho. Cobra o embrulhar do pão, assim como, todo e qualquer serviço.
Além disso, me impõe taxas. Uma 'taxa de
acesso ao pãozinho', outra 'taxa por guardar pão quentinho' e ainda uma 'taxa de abertura da padaria'. Tudo com muita cordialidade e muitoprofissionalismo, claro.
Fazendo uma comparação que talvez os padeiros não concordem, foi o que ocorreu comigo em seu Banco.
Financiei um carro. Ou seja, comprei um produto de seu negócio. Os senhores me cobraram preços de mercado. Assim como o padeiro me cobra o preço de mercado pelo pãozinho.
Entretanto, diferentemente do padeiro, os senhores não se satisfazem me cobrando apenas pelo produto que adquiri.
Para ter acesso ao produto de seu negócio, os senhores me cobraram uma 'taxa de abertura de crédito' - equivalente àquela hipotética 'taxa de acesso ao pãozinho', que os senhores certamente achariam um absurdo e se negariam a pagar.
Não satisfeitos, para ter acesso ao
pãozinho, digo, ao financiamento, fui obrigado a abrir uma conta corrente em seu Banco.
Para que isso fosse possível, os senhores me cobraram uma 'taxa de abertura de conta'.
Como só é possível fazer negócios com os senhores depois de abrir uma conta, essa 'taxa de abertura de conta' se assemelharia a uma 'taxa de abertura da padaria', pois, só é possível fazer negócios com o
padeiro depois de abrir a padaria.
Antigamente, os empréstimos bancários eram popularmente conhecidos como papagaios'. para liberar o 'papagaio', alguns gerentes inescrupulosos cobravam um 'por fora', que era devidamente embolsado. Fiquei com a impressão que o Banco resolveu se antecipar aos gerentes inescrupulosos. Agora ao invés de um 'por fora' temos muitos 'por
dentro'.
- Tirei um extrato de minha conta - um único extrato no mês - os senhores me cobraram uma taxa de R$ 5,00. - Olhando o extrato, descobri uma outra taxa de R$ 7,90 'para a manutenção da conta' semelhante àquela 'taxa pela existência da padaria na esquina da rua'.
- A surpresa não acabou: descobri outra taxa de R$ 22,00 a cada trimestre - uma taxa para manter um limite especial que não me dá nenhum direito. Se eu utilizar o limite especial vou pagar os juros (preços) mais altos do mundo. - Semelhante àquela 'taxa por guardar o pão quentinho'.
- Mas, os senhores são insaciáveis!!!. A gentil funcionária que me atendeu, me entregou um caderninho onde sou informado que me cobrarão taxas por toda e qualquer movimentação que eu fizer.
Cordialmente, retribuindo tanta gentileza, gostaria de alertar que os senhores esqueceram de me cobrar o ar que respirei enquanto estive nas instalações de seu Banco.
Por favor, me esclareçam uma dúvida: até agora não sei se comprei um financiamento ou se vendi a alma?
Depois que eu pagar as taxas correspondentes, talvez os senhores me respondam informando, muito cordial e profissionalmente, que um serviço bancário é muito diferente de uma padaria. Que sua responsabilidade é muito grande, que existem inúmeras exigências governamentais, que os riscos do negócio são muito elevados etc e tal. E, ademais, tudo o que estão
cobrando está devidamente coberto por lei, regulamentado e autorizado pelo Banco Central.
Sei disso.
Como sei, também, que existem seguros e garantias legais que protegem seu negócio de todo e qualquer risco. Presumo que os riscos de uma padaria, que não conta com o poder de influência dos senhores, talvez sejam muito mais elevados.
Sei que são legais. Mas, também sei que
são IMORAIS!!!!!. Por mais que estejam garantidas em lei, tais taxas são uma IMORALIDADE !!!.
(recebi de um anônimo muito bem humorado e, como se viu, informado sobre o que é banco e roubo)

07 agosto 2008

Homer Simpson e a lista suja

por Marcos Rolim*

Não sei exatamente o que podemos entender pela expressão homem médio, mas, se ela tiver algum sentido, penso que deva ser compreendida como algo aproximado ao conceito de espírito objetivo de que nos falava Hegel. Para o filósofo alemão, o espírito objetivo de uma época se plasmava no Direito (que regula as condutas externamente), na moralidade (que regula a ação pela idéia de dever) e na eticidade (espaço onde se atribui uma finalidade concreta à ação). O conceito, assim, no arcabouço magistral da filosofia clássica, identifica as regras (valores) e os projetos mais comuns em uma época; tudo aquilo, em síntese, que podemos atribuir a esta abstração reconhecida como o homem médio. Pois bem, o homem médio no Brasil não aprecia os políticos e não gosta, também, que alguém lhe recorde que os detentores de mandatos são uma expressão da sua própria vontade, convocada periodicamente às urnas. O homem médio se orgulha do seu distanciamento da política sem se dar conta de que é exatamente neste estranhamento que vicejam os pilantras em todos os partidos. Ruim, então, se falar qualquer coisa em defesa de políticos. Mesmo assim, vamos lá: a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) divulgou a lista de candidatos a prefeito que respondem a ações penais. A relação imediatamente chamada de lista suja pela imprensa agrega nomes de vários partidos e se transformou em peça de campanha política para aqueles que não estão nela e que, como resultado, se apresentam como limpos. Muita gente aplaudiu a iniciativa. Sinal dos tempos. A lista é um desserviço à nação, um atentado à Constituição e um descompromisso diante da idéia de justiça.

Talvez o homem médio seja um cidadão com determinada dificuldade diante de abstrações e, como o observou Márcio Chaer, determinadas idéias como “direito de defesa” não podem ser explicadas facilmente a Homer Simpson. Coloquemos o tema, então, da seguinte forma: imaginemos que o homem médio receba em sua casa uma intimação para prestar depoimento em uma ação penal que sabe ser motivada injustamente por um desafeto; que, ao final da instrução, o juiz do caso, convencido da inocência do homem médio, o absolva e que o Ministério Público recorra desta decisão. Diante desta hipótese, o homem médio concordaria que seu nome fosse exposto publicamente em uma lista chamada de “suja”? O fato de ele ser, eventualmente, candidato a algum posto altera algo quanto aos seus direitos? Por estas e por outras, nossa Constituição consagra o princípio da presunção da inocência, o que significa que ninguém será considerado culpado antes de sentença condenatória com trânsito em julgado (sem mais recursos).

Agora, imaginem o que a brava Associação dos Magistrados diria caso outra entidade resolvesse publicar a “lista suja dos juízes”, divulgando, por exemplo, os nomes dos magistrados que respondem a processos de correição interna. E a imprensa nacional, o que diria se tivéssemos uma “lista suja” dos proprietários dos meios de comunicação, ou dos jornalistas? E os empresários? Que tal uma “lista suja” das empresas? Não sei quais seriam as respostas do homem médio. Homer Simpson, por certo, trocaria o canal da TV.
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*Jornalista

22 julho 2008

Escopeta não é chocalho




A reativação da IV Frota Naval dos Estados Unidos, na zona do Atlântico Sul, provocará uma mudança radical e permanente, nas relações militares dos EUA com a América Latina. Ela ocorre no momento que está em curso uma nova "corrida imperialista" entre as grandes potências, que lutam por sua segurança alimentar e energética, exatamente como ocorreu no início do século XX.

José Luís Fiori

"Pode-se perguntar por que um estado mais forte desejaria atacar um mais fraco, mas certamente esse não é o ponto. O fato decisivo é que, no nível interestatal, a unidade maior pode atacar os grupos mais fracos. Como não há quem possa impedir esses ataques, os grupos humanos mais fracos vivem em contínuo e inevitável estado de insegurança”

Norbert Elias, Envolvimento e Alienação, Editora Bertrand, Rio de Janeiro, 1990, p: 214

A reativação da IV Frota Naval dos Estados Unidos, na zona do Atlântico Sul, provocará uma mudança radical e permanente, nas relações militares dos EUA com a América Latina. Foi por isto que surpreenderam tanto, as primeiras explicações americanas, a respeito da reativação da sua Frota - criada em 1943, e desmantelada em 1950 – que teria sido uma simples decisão “administrativa”, tomada com objetivos “pacíficos, humanitários e ecológicos”. A mentira não é um pecado grave no campo das relações internacionais. Pelo contrário, mentir ou dizer meias-verdades, com competência, foi sempre uma arte e uma virtude essencial da diplomacia, entre as nações. Portanto, não foi isto que chamou atenção, na declaração das autoridades americanas, foi o seu desrespeito pela inteligência dos interlocutores, e o seu deboche com relação à impotência dos governos afetados pela sua decisão.

Mesmo quando se falasse também da necessidade de “combater a pirataria, o tráfico de drogas, de pessoas e de armas”, sem explicar, ao mesmo tempo, porque que a IV Frota não foi reativada durante a Guerra Fria, ou mesmo, depois da Revolução Cubana e da Crise dos Foguetes, de 1962, quando o “fluxo ilegal de armas e pessoas”, e o “tráfico de drogas” era igual ou maior do que hoje. Por isto, tiveram grande repercussão as declarações “corretivas”, das autoridades navais dos EUA, feitas na Base Naval Mayport, na Flórida, no dia 11 de julho de 2008. Em particular, o discurso inaugural do almirante Gary Roughead, chefe de Operações Navais da Marinha Americana, quem redefiniu o objetivo principal da nova Frota, destinada a “proteger os mares da região, daqueles que ameaçam o fluxo livre do comércio internacional”, ao mesmo tempo em que advertia, aos desavisados, que “ninguém deve se enganar: porque esta frota estará pronta para qualquer operação, a qualquer hora e em qualquer lugar, num máximo de 24 a 48 horas”.

Com respeito à proteção do comércio marítimo, todos os especialistas sabem que só tem capacidade de proteger o “livre fluxo do comércio mundial”, quem também tem a capacidade de interrompê-lo. Ou seja, quem tem poder para proteger, também tem o poder de excluir concorrentes, se for o caso, quando se acirra a competição entre os estados e os capitais privados, como está acontecendo, neste início do século XXI. Depois de quase uma década de crescimento contínuo e acelerado, a economia mundial enfrenta neste momento, uma disparada dos preços, da especulação e da escassez de algumas commodities fundamentais, como é o caso do petróleo, dos alimentos e dos minerais estratégicos. E neste momento, já está em curso uma nova “corrida imperialista”, entre as grandes potências, que lutam por sua segurança energética e alimentar, exatamente como aconteceu no final do século XIX, e início do século XX.

Uma competição que já chegou à África, e deverá atingir a América Latina, de forma ainda mais intensa, graças aos seus recursos energéticos, às suas grandes reservas minerais e hídricos, e à sua imensa capacidade de produção alimentar, muito superior à da África. Em particular, no caso do Brasil, que deverá ser - em breve - o maior exportador mundial de alimentos, e um dos grandes exportadores de petróleo, além de ser o principal “proprietário” das águas e da biodiversidade amazônica.
Existindo um agravante, no caso brasileiro, do ponto de vista das autoridades norte-americanas: o fato de ser o país que está liderando os processos de criação da UNASUL e do Conselho Sul-Americano de Defesa, organizações que excluem os EUA e esvaziam o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, e a Junta Interamericana de Defesa, que são controlados pelos norte-americanos.

Esta história, entretanto, traz uma lição importante para o futuro da América Latina, e do Brasil em particular. Faz um século, mais ou menos, o almirante e geopolítico Alfred Mahan, se notabilizou pela sua defesa militante, da idéia que os EUA jamais seriam uma “grande potência”, apoiando-se apenas no seu desenvolvimento econômico. Para ter estatuto internacional, precisariam de uma esquadra naval capaz de projetar o poder americano ao redor do mundo, como havia feito a Inglaterra, no século XIX . O almirante Mahan exerceu grande influencia pessoal, sobre o presidente Theodore Roosevelt, logo no início do século XX, e depois se transformou no maior símbolo do poder naval americano, de todos os tempos. Com razão, porque menos de meio século depois da sua morte, os EUA já eram o maior poder naval da história da humanidade, controlando todos os mares e oceanos do mundo, com suas sete Frotas Navais.

Neste momento, os EUA acabam de reativar a sua IV Frota, mas poderão criar muitas outras, se quiserem, sem ferir o Direito Internacional, sem precisar utilizar as águas soberanas de outros estados, e sem precisar dar explicações a ninguém. Obedecendo apenas aos seus cálculos estratégicos e ao seu poder de construir e distribuir navios militares ao redor do mundo, como havia proposto Alfred Mahan.

Segundo o sociólogo alemão Norbert Elias, a dura verdade é que, “se algum estado for mais forte ou se acreditar mais forte que seus vizinhos, sempre haverá a possibilidade de que tente obter vantagens, o que pode ocorrer de diversas formas, hostilizando-os, fazendo exigências ou invadindo-os e anexando-os [..] e só existe uma possibilidade de um estado com maior potencial de violência ser impedido de explorar ao máximo sua porção de poder relativo: ele só pode ser reprimido por outro estado equivalentemente forte ou por um grupo de estados que consigam controlar as rivalidades entre si em grau suficiente para favorecer seu potencial combinado de poder”.





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Publicado em Carta Maior
José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

19 julho 2008

Dercy Gonçalves!

No Teatro de Revista



As pessoas, muitas, passaram 70 anos fingindo se escandalizar com a irreverência de Dercy Gonçalves, a artista da revista, do teatro, do cinema e da tevê brasileiras que mais sério falou do caráter da brasilidade e que nos deixou hoje à tarde, ao falecer aos 101 anos.


Como sempre há controvérsia em tudo que envolve Dercy, ela mesma dizia que já fizera 103 anos.

***

Ontem eu passava à frente de uma escola primária aqui na vila, na hora da saída da tarde, e no empurra-empurra, uma pirralha de uns sete pra oito anos repetia em rol, de cabo a rabo, todo o notável vocabulário cultivado pela mais popular de nossas artistas, quiçá já incorporando...


***

No Paraíso, uma imensa confusão, um arranca-rabo dos diabos entre santos, querubins e anjos, com a inusitada e inesperada chegada.

Vai dar um rebu, um furdúncio, o Paraíso jamais será o mesmo... Dercy chegou metendo os peitos e avançando sobre Pedro que se enrolava com as chaves...

17 julho 2008

Do morticínio trivial


Não, não, não é a ficção
a vida assim não se imita,
não há arte que a reflita,
em qualquer dimensão.

o tal "caminho do bem",
sempre o mais pedregoso
e duro que a facilidade
de uma bala na contra-mão.

não é das sombras
que pode surgir algum medo,
que apenas sombras são,
é das mãos armadas
da inocência desacreditada
a quem desimporta
o mais que a vida valha

não é sombra a palmilhar
o caminho da maldade
nem será da noite o receio
se é ainda tarde em meio
apenas hora do recreio

nem natural nem medo,
banalização da violência
da desvalia da vida,
a não essência
como é a guerra, sem senso
É, pois, dela mesma que se trataria.

16 julho 2008

Piso nacional do professor será de R$ 950.

Presidente sanciona leis que beneficiam todos os níveis e etapas da educação

Serão criados 38 Institutos Federais de Educação


Professores da educação básica pública de todo País serão beneficiados com a entrada em vigor do piso nacional do magistério de R$ 950. Além da lei que cria o piso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou, nesta quarta-feira (16), três projetos de lei. O presidente também encaminhou outros dois projetos ao Congresso Nacional e assinou uma portaria. Juntas, estas medidas vão beneficiar a educação em todos os seus níveis e etapas.

O presidente agradeceu a aprovação dos projetos no Senado Federal e na Câmara dos Deputados. “O que foi produzido pelas duas Casas e que eu sancionei é a semente de um novo ser humano que vamos ver nascer no País”, afirmou.

Cerca de 40% dos professores em início de carreira, principalmente aqueles que trabalham no interior dos estados do Norte e do Nordeste, recebem salários inferiores a R$ 950. Isso significa que 800 mil docentes passarão a ganhar mais. É a primeira categoria a ter um piso nacional definido na Constituição Federal. “O piso é mais do que a luta de uma categoria, ele resgata o papel e a missão histórica daqueles que lidam com nossas crianças e nossos jovens”, afirmou o ministro da Educação, Fernando Haddad.

A fixação do piso salarial para o magistério é uma reivindicação histórica da categoria que firmou compromisso com o governo federal, em 1994, para estabelecer um piso. Estados e municípios terão 18 meses, até 2010, para pagar o valor integral de R$ 950 a partir de reajustes anuais. O presidente da Frente Nacional dos Prefeitos, João Paulo, ressaltou a competência e o compromisso do governo com a educação. “Os trabalhadores só têm a comemorar”, disse.

A partir da sanção presidencial, passam a valer também as leis que criam 49 mil cargos de professores e técnicos, necessários para dar sustentação ao Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni) e à expansão da rede federal da educação profissional e tecnológica. O Reuni prevê a duplicação de vagas nas universidades federais.

Para isso, a lei a ser sancionada institui 3.375 cargos no âmbito do MEC, destinados à redistribuição para as instituições federais de ensino superior. Desses, 2,3 mil são cargos efetivos de professor para a carreira do magistério superior e 1.075 de técnicos administrativos para diversas áreas. As universidades federais também farão concursos públicos para preencher 13.264 vagas de docentes e 10.656 de técnicos administrativos. Com o aumento do número de técnicos e professores, será possível consolidar o ensino a cerca de um milhão de alunos a mais no ensino superior em quatro anos. “Esse é um processo de expansão de um grande sistema de aperfeiçoamento do magistério público brasileiro”, afirmou Haddad.

Qualificação - Já as instituições federais de educação profissional e tecnológica disporão de 9.430 cargos de técnico administrativo e 12,3 mil cargos de professor de ensino fundamental e médio. Os profissionais serão fundamentais para fortalecer a formação de trabalhadores qualificados no Brasil.

Além de pessoal de qualidade para a educação profissional e tecnológica, a modalidade passará a funcionar de maneira mais atrelada à educação básica com a sanção pelo presidente de alterações à Lei de Diretrizes e Bases (LDB). Entre outras medidas, o projeto de lei propõe que o ensino médio, atendida a formação geral do estudante, prepare para o exercício de profissões técnicas. Assim, a articulação entre ensino regular e técnico deve ser feita de forma integrada (matrícula única, na mesma escola) ou concomitante (matrículas distintas, na mesma ou em outra instituição, para quem ingressa ou já cursa o ensino médio).

Outra ação vai beneficiar, ainda, a educação profissional e tecnológica. O presidente assinou o projeto de lei que cria os 38 Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (Ifets) e o encaminhou ao Congresso Nacional. O projeto prevê institutos em todos os estados com a oferta de ensino médio integrado, cursos superiores de tecnologia, bacharelado em engenharias e licenciaturas.

Para orientar as escolas que oferecem cursos técnicos de nível médio, o presidente assinou uma portaria que institui um novo Catálogo Nacional de Cursos Técnicos de Nível Médio. O texto altera as diretrizes curriculares desta modalidade de ensino e oferece um mapeamento da oferta da educação técnica de nível médio.

O presidente Lula também encaminhou projeto de lei ao Congresso Nacional criando a universidade Fronteira do Sul.

Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República
Nº 676 - Brasília, 16 de Julho de 2008

15 julho 2008

Degradação do Judiciário



O papel de Gilmar Mendes estava escrito nas estrelas, conforme a adivinhação há seis anos feita por escrito e publicada na Folha de São Paulo, de autoria de


Dalmo de Abreu Dallari


“Nenhum Estado moderno pode ser considerado democrático e civilizado se não tiver um Poder Judiciário independente e imparcial, que tome por parâmetro máximo a Constituição e que tenha condições efetivas para impedir arbitrariedades e corrupção, assegurando, desse modo, os direitos consagrados nos dispositivos constitucionais.



Sem o respeito aos direitos e aos órgãos e instituições encarregados de protegê-los, o que resta é a lei do mais forte, do mais atrevido, do mais astucioso, do mais oportunista, do mais demagogo, do mais distanciado da ética.



Essas considerações, que apenas reproduzem e sintetizam o que tem sido afirmado e reafirmado por todos os teóricos do Estado democrático de Direito, são necessárias e oportunas em face da notícia de que o presidente da República, com afoiteza e imprudência muito estranhas, encaminhou ao Senado uma indicação para membro do Supremo Tribunal Federal, que pode ser considerada verdadeira declaração de guerra do Poder Executivo federal ao Poder Judiciário, ao Ministério Público, à Ordem dos Advogados do Brasil e a toda a comunidade jurídica.



Se essa indicação vier a ser aprovada pelo Senado, não há exagero em afirmar que estarão correndo sério risco a proteção dos direitos no Brasil, o combate à corrupção e a própria normalidade constitucional. Por isso é necessário chamar a atenção para alguns fatos graves, a fim de que o povo e a imprensa fiquem vigilantes e exijam das autoridades o cumprimento rigoroso e honesto de suas atribuições constitucionais, com a firmeza e transparência indispensáveis num sistema democrático.



Segundo vem sendo divulgado por vários órgãos da imprensa, estaria sendo montada uma grande operação para anular o Supremo Tribunal Federal, tornando-o completamente submisso ao atual chefe do Executivo, mesmo depois do término de seu mandato. Um sinal dessa investida seria a indicação, agora concretizada, do atual advogado-geral da União, Gilmar Mendes, alto funcionário subordinado ao presidente da República, para a próxima vaga na Suprema Corte. Além da estranha afoiteza do presidente -pois a indicação foi noticiada antes que se formalizasse a abertura da vaga-, o nome indicado está longe de preencher os requisitos necessários para que alguém seja membro da mais alta corte do país.



É oportuno lembrar que o STF dá a última palavra sobre a constitucionalidade das leis e dos atos das autoridades públicas e terá papel fundamental na promoção da responsabilidade do presidente da República pela prática de ilegalidades e corrupção.(…)



Indignado com essas derrotas judiciais, o dr. Gilmar Mendes fez inúmeros pronunciamentos pela imprensa, agredindo grosseiramente juízes e tribunais, o que culminou com sua afirmação textual de que o sistema judiciário brasileiro é um “manicômio judiciário”.Obviamente isso ofendeu gravemente a todos os juízes brasileiros ciosos de sua dignidade, o que ficou claramente expresso em artigo publicado no “Informe”, veículo de divulgação do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (edição 107, dezembro de 2001).

Num texto sereno e objetivo, significativamente intitulado “Manicômio Judiciário” e assinado pelo presidente daquele tribunal, observa-se que “não são decisões injustas que causam a irritação, a iracúndia, a irritabilidade do advogado-geral da União, mas as decisões contrárias às medidas do Poder Executivo”.



E não faltaram injúrias aos advogados, pois, na opinião do dr. Gilmar Mendes, toda liminar concedida contra ato do governo federal é produto de conluio corrupto entre advogados e juízes, sócios na “indústria de liminares”.



A par desse desrespeito pelas instituições jurídicas, existe mais um problema ético.

Revelou a revista “Época” (22/4/ 02, pág. 40) que a chefia da Advocacia Geral da União, isso é, o dr. Gilmar Mendes, pagou R$ 32.400 ao Instituto Brasiliense de Direito Público -do qual o mesmo dr. Gilmar Mendes é um dos proprietários- para que seus subordinados lá fizessem cursos. Isso é contrário à ética e à probidade administrativa, estando muito longe de se enquadrar na “reputação ilibada”, exigida pelo artigo 101 da Constituição, para que alguém integre o Supremo.



A comunidade jurídica sabe quem é o indicado e não pode assistir calada e submissa à consumação dessa escolha notoriamente inadequada, contribuindo, com sua omissão, para que a arguição pública do candidato pelo Senado, prevista no artigo 52 da Constituição, seja apenas uma simulação ou “ação entre amigos”. É assim que se degradam as instituições e se corrompem os fundamentos da ordem constitucional democrática”.



(publicado na Folha de São Paulo, em 8 de maio de 2002)

09 julho 2008

Ainda uma vez fardados...




Sem música, nem trilha
na estrada em vão,
Passos apressados
da noite desesperada
não socorrem as crianças
gritam, choram, desesperam
são bandidos que disparam.
Quer escapar ao fogo
Atira a esperança ao chão
Os ladrões de vida,
moram ao lado, fardados.

08 julho 2008

Falta alguém em Nuremberg!

Daniel Dantas é o dono do Banco Opportunity e patrão de Antônio Britto desde a saída deste do governo do estado do Rio Grande do Sul. Mera coincidência, o Banco Opportunity comprou a CRT privatizada por Britto. Com Dantas na cadeia, Britto freqüentando o Palácio Piratini entrando pela porta dos fundos, por onde saiu ao perder o governo para Olívio Dutra, levará cigarros e pasta de dentes e cotonetes ao chefe? Leia mais no Agente 65.

26 junho 2008

Ação do MP gaúcho é ideológica acusa Jacques Alfonsín

Ação de promotores gaúchos é ideológica, diz ex-procurador.

Em entrevista à Radioagência NP, Jacques Alfonsín avalia que, juridicamente, a ação representa uma violação dos direitos humanos.
A ação civil movida pelo Ministro Público do Rio Grande do Sul contra o Movimento Sem Terra (MST) tem fundo ideológico. A avaliação é do procurador aposentado do Estado, Jacques Távora Alfonsín. Para ele, a ação, baseada em relatórios da Brigada Militar e em literaturas de intelectuais que se opõem à organização, como o filósofo Denis Rosenfield, não consegue provar os supostos crimes do MST, mas sim criminaliza pela via ideológica.
O documento é estruturado em cinco eixos de ações contra os sem terra, que vão desde desmanche de acampamentos e criminalização de lideranças a intervenções nas escolas.

“Quem lê a petição inicial vê que o MP vestiu a camisa dos latifundiários. Na Constituição Federal, a função do MP não é perseguir pobre, nem evitar pressão social de gente que está reivindicando reforma agrária. Essas ações se baseiam num sociólogo rural [Zander Navarro] magoado com o movimento. Não existe preocupação destes promotores em sustentar essas coisas em fatos, é tudo gente que não concorda ideologicamente com o movimento”, diz.

À partir de relatórios da Brigada Militar, os promotores Luciano de Faria Brasil e Fábio Roque Sbardelotto formularam um documento que foi aprovado, por unanimidade, pelo Conselho Superior do órgão. No texto, os promotores concluem que o MST é uma organização criminosa, a exemplo do PCC de São Paulo, e que utiliza táticas de guerrilha rural para criar um Estado paralelo.

As provas são os relatórios policiais que, além de não provarem os supostos treinamentos de guerrilha, citam elementos que Jacques considera absurdos, como o fato de famílias acampadas lerem livros de Paulo Freire ou do sociólogo Florestan Fernandes, taxados criticamente pelos militares como “pessoas ligadas a movimentos revolucionários ou de contestação aberta à ordem vigente”.

“Na petição inicial, os promotores se baseiam no fato de que o MST é um movimento anti-capitalista e esquerdista. Quer dizer, tudo aquilo que as universidades estudam em sociologia com a maior liberdade. Qual é o crime ser anti-capitalista e esquerdista?
Para acentuar essa denúncia, eles se baseiam no Estatuto da Terra votado durante o regime militar que acabou com as Ligas Camponesas [Movimento Camponês exterminado após o golpe de 1964, e que tinha como pauta “a reforma agrária na lei ou na marra”], para mostrar que o MST, então, se equipararia às ligas. Se voltou à época da ditadura para se sustentar esse ataque”, argumenta Jacques.

19 junho 2008

A miséria intelectual do governo gaúcho

O assunto é Política Cultural. Ele, artista de teatro, ator; ela, atualmente, governadora do Rio Grande do Sul. Numa carta que vai na íntegra a seguir, publicada no sítio
http://www.artistasgauchos.com.br/portal/
Alexandre Vargas diz, firme, franco e direto:
Pobre de nós cujo seu governo senhora governadora Yeda Crusius despreza, hostiliza e fere a todos nós artistas. A miséria intelectual do seu governo é a nossa miséria material.

A quem interessar a opinião de um artista gaúcho sobre a ação da governadora do estado nos negócios da Cultura, publico a crítica do ator à falta de política cultural da atual gestão do Rio Grande.



Senhora Governadora Yeda Crusius:

Sou um artista. Milhões de gaúchos desconhecem o mal que a senhora me tem feito. Não entendo que ameaça nós os artistas poderíamos constituir? A minha arte é o teatro e o teatro é por força de sua essencialidade uma arte efêmera. O seu tempo é gerado no ato da representação e, portanto, se esgotaria na duração de uma encenação. Mas ainda que tudo pareça se esgotar em duas ou mais horas, o movimento teatral traz em si a permanência dos tempos. Não é sem razão senhora governadora que o teatro é uma arte que se estende por mais de cinco mil anos, absoluta, presente, critica e contemporânea. Como cidadão faço do meu oficio um instrumento de participação política. Não por uma interposta razão divina, mas por uma vocação que foi sendo cultivada ao longo de 18 anos de prática de trabalho. Como artista faço a minha participação política dentro do meu oficio, ou seja, fora da filiação partidária. Com isso deixo claro que o palco é o meu espaço também político.

Na história do nosso Brasil, artistas deste país já foram convocados para um grande futuro e uma grande mudança. As oposições políticas armaram palanques, esses mesmos artistas, preparando o espetáculo, “esquentaram” as multidões nas praças, fortalecendo lideranças ainda não confiantes em si mesmas. Uma vez fortalecidas essas lideranças políticas ocuparam o centro dos palanques. Os artistas, cumprida a missão, recuaram. As massas humanas se impuseram. A partir daí, todos nós, irmanados, começamos a construção de um Brasil novo.

Depois de tantos anos de arejamento, arduamente sendo construído, passo-a-passo, hoje nós os artistas do Rio Grande do Sul, vivemos em asfixia. Pobre de nós cujo seu governo senhora governadora Yeda Crusius despreza, hostiliza e fere a todos nós artistas. A miséria intelectual do seu governo é a nossa miséria material. Convido a senhora a refletir um pouco sobre a cultura, a arte e as artes do nosso Rio Grande do Sul. Revelo o meu gesto independente de cidadão que deposita sua confiança numa mulher que já foi entusiasmada e me parece consciente. A esse convite gostaria que a senhora governadora respondesse com a mesma limpeza de propósitos. Vejo na Secretaria de Cultura do seu governo, no meu entender nenhuma outro lhe é superior, permita-me dizer-lhe com todo respeito e confiança, um quadro de morte, nostalgia, demagogia, de perda e degredo. Gostaria que a senhora entendesse que a melhor maneira dos artistas prestarem seu serviço à cultura do Rio Grande do Sul é exercendo o seu oficio. Portanto senhora governadora não atrapalhe o nosso trabalho.

Senhora governadora Yeda Crusius é profundamente inquietante e ofensivo para a cultura do Rio Grande do Sul que a senhora mantenha as diretrizes de cultura bem como a atual Secretária de cultura. É preciso nominar e não generalizar. Esta é a razão desta carta. Como muitos outros homens e mulheres de teatro, faço parte, senhora governadora, de um artesanato, de uma classe de trabalhadores, classe sofrida, sobrevivente, de anos e anos de repressão econômica e política e não de uma indústria cultural.

Constrange ver na Secretaria de Cultura a paralisação de toda uma frente de atividades culturais. Ação constrangedora para qualquer regime político. Há de se ter discernimento senhora governadora! Nos indigna a perda econômica, o desemprego na área cultural, os projetos adiados pelo seu governo, as rifas dos espaços públicos e acima de tudo a dúvida que a senhora coloca sobre a nossa idoneidade mental e intelectual. Não estamos de acordo com o que a senhora pretende de política de ação cultural. A população do Rio Grande do Sul outorgou a Sra. Governadora como chefe desse Estado, eleita pelo voto direto, logo se não estamos de acordo com o que a senhora pretende de política de ação cultural, o governo deve reapresentar uma proposta construída, juntamente com os homens de cultura deste Estado, para chegarmos harmoniosamente a um somatório de esforços e resultados.

Gostaria, senhora governadora, que entendesse essa carta, não como uma reivindicação de atendimento material. Primeiro e acima de tudo há que se tornar um posicionamento moral e ético. Desejo como todos os gaúchos, que este Estado de certo, que se transforme num espaço respeitado. A cultura senhora governadora é uma área delicada. Este Estado que já foi respeitado não existirá sem que a criatividade de sua população venha para o primeiro plano de atendimento civilizadamente.

Exigir qualquer coisa dessa atual gestão publica de cultura, que têm, em geral, uma crassa ignorância sobre o quadro político e econômico em que sua produção se dá, é produzir um diálogo viciado que só faz legitimar, os fazedores de cultura no Rio Grande do Sul. Os episódios rotineiros da Secretaria de Cultura são reveladores. Muito além da politicagem de praxe ou da proverbial incapacidade de gestão para discernir política cotidiana e partidária da questão cultural e artística. Num contexto mais amplo o que fica em evidência é o quadro de total desolação de investimentos públicos na cultura. Por outros caminhos a Secretaria Estadual da Cultura parece condenada a extinção. Esta é a função da Secretaria Mônica Leal?

Que terríveis perigos nos alertam? Que receios o vosso governo me inspira? Infelizmente não é produto de um sonho. São os fatos que alimentam a minha desconfiança. O Estado do Rio Grande do Sul não consegue dormir. Porque vive sobressaltado por terríveis acontecimentos. E esse temor faz com que eu proclame uma exigência. Uma exigência que tem a ver consigo, Cara Governadora: proceda a demissão da sua Secretária de Cultura a Sra. Mônica Leal. Exijo mais: que os inspetores do governo, o gabinete de transição ou o Ministério Público fossem enviados à Secretaria de Cultura.

O vosso governo, como tudo indica, albergou criminosos sanguinários cujas forças lobista-politiqueira massacraram milhares de inocentes, entre eles eu. O governo do Rio Grande do Sul é o único do Brasil que regrediu seus investimentos na cultura. Forças retóricas e discursivas do seu governo treinaram e armaram fundamentalistamente a subjetividade dos gaúchos (incluindo uma classe chamada de “elite”) a pretexto de miséria e de um Estado quebrado, enquanto milhões de reais são desviados. O seu governo, enquanto pratica as piores atrocidades contra os artistas do Rio Grande do Sul, é apoiado por diversos partidos. Como tantos outros fantoches, a Secretária de Cultura Mônica Leal foi por vossa vontade conduzida ao poder e concede a inoperância e a paralisia. São verdadeiras ações de terrorismo cultural, postas em prática pela Secretária que devasta a produção cultural desse Estado.

A decisão que a Senhora Governadora teima em iniciar poderá libertar-nos de uma marqueteira individualista e demagógica. Estamos todos mais pobres no Rio Grande do Sul com essa Secretária de Cultura. Enfrentamos maiores dificuldades nas nossas já precárias economias e temos menos esperança num futuro do seu governo, pela razão e pela moral. Se a atual Secretária permanecer nesse cargo e os nossos parlamentares gaúchos não se manifestarem, teremos menos fé na força reguladora da nossa Assembléia Legislativa. Estaremos, enfim, mais sós e mais desamparados.

Senhora governadora o Estado do Rio Grande do Sul não é o governo Yeda Crusius. São milhões de mães e filhos, e de homens que trabalham e sonham. Preocupamo-nos com os males do governo Yeda Crusius que são reais. O que está destruindo massivamente os gaúchos não são só as armas do narcotráfico, o desemprego a miséria e a violência. São também os seus Secretários de governo. São as sanções brancas que conduzem a uma situação humanitária grave. Em protesto a essas sanções peço a demissão da Secretária de Cultura Mônica Leal.

O seu governo ao abrigar a atual Secretária de Cultura: Esta destruindo toda uma sociedade. É tão simples e terrível como isso. E isso é ilegal e imoral. Esse sistema de sanções que se da pela inoperância, pela passividade, pela retórica demagógica leva à morte.

Livrar-nos-emos da Secretária Mônica Leal. Mas continuaremos prisioneiros da lógica dos lobistas políticos e da arrogância. Não quero que os meus filhos vivam dominados pelo fantasma do medo. Pois eu, pobre ator, tenho um sonho. Sonho que o Estado do Rio Grande do Sul possa ser um Estado de todos os gaúchos.

Porque a maioria da população gaúcha não aprova o governo Yeda Crusius? Porque defendemos a democracia, a liberdade e os direitos humanos, Sra. Governadora! Somos alvos de terroristas porque, o vosso governo defende a ditadura, a escravidão e a exploração humana. Somos alvos de terroristas porque somos esquecidos, nós os artistas desta terra. O vosso governo não é aprovado porque faz coisas odiosas: agentes do vosso governo vendem o seu próprio povo a miséria intelectual e material. O povo do Rio Grande do Sul aprendeu a desfrutar de democracia, de liberdade e de direitos humanos. Nós os artistas somos esquecidos e odiados pelo seu governo não porque praticamos a democracia, a liberdade ou os direitos humanos. Mas somos odiados porque o vosso governo nega essas coisas ao nosso povo.

A senhora governadora parece que não necessita de nada para exercer o seu direito de intervenção na Secretaria de Cultura. Intervenção para trocar a atual Secretária Mônica Leal. Intervenção para cobrar resultados. Nós preferíamos vê-la assinar a demissão dela, para conter o efeito estufa que queima os artistas do Rio Grande do Sul. Ao menos gostaríamos de encontrar moral e verdade na sua argumentação. Eu e milhões de cidadãos do Rio Grande do Sul não ficaremos convencidos quando a ouvirmos justificar as atitudes amadoras de seus secretários de governo, em especial a Secretária de Cultura.

Não se preocupe, senhora Governadora. A nós, artistas deste Estado, não nos passa pela cabeça exigir a vossa demissão por causa desse apoio cego que as vossas sucessivas ações administrativas concedem apoiando esses secretários medíocres. A maior ameaça que pesa sobre o seu governo não é o Estado falido, a miséria como a senhora tanto nos aterroriza. Mas sim é o universo de mentira que se criou em redor dos vossos colegas de trabalho. O perigo não é o novo jeito de governar. Mas o sentimento de superioridade que parece animar o seu governo. O seu inimigo principal não está fora. Está dentro do Palácio Piratini, esta dentro do seu governo e não é o vice-governador Paulo Feijó.

Receba, senhora governadora Yeda Crusius, este convite à reflexão, e também os meus profundos votos para que o seu governo transforme este Estado, numa terra realmente abençoada e que, um dia, artistas sejam realmente respeitados. Infelizmente no seu governo, até o atual momento, a carne de mármore e as paixões de bronze de Auguste Rodin não são arte, mas nome de investigação da Policia Federal sobre a fraude milionária e esquema de corrupção e troca de favores enraizadas nas esferas do poder.

Eu gostaria de poder festejar a derrubada da Mônica Leal. E festejar com todos os gaúchos. Mas sem hipocrisia, sem argumentação e consumo de diminuídos mentais. Porque nós, cara Governadora Yeda Crusius, nós, os artistas, temos uma arma de construção massiva: a capacidade de pensar.

Atenciosamente,

Alexandre Vargas, um ator.

12 junho 2008

Yeda é do PT, diz a boca torta do JB


Por Gilson Caroni Filho, no Observatório da Imprensa

Diz a psicanálise que é através do ato falho que o inconsciente realiza seus desejos. Como Freud não admitia espaço para o acaso, nenhum gesto, palavra ou pensamento acontece acidentalmente. Em tudo há uma intencionalidade, oculta ou não.
O que ocorreu com a edição de domingo (8/6) do Jornal do Brasil ao tratar do escândalo que atinge o governo de Yeda Crusius (PSDB-RS), os editores não hesitaram em caprichar no significativo título: ''Corrupção abala governo do PT''.

07 junho 2008

Em qual idioma nossos filhos sonharão?

Por Valério Bemfica

Imagine-se, leitor, em um destes supermercados pertencentes a uma rede estrangeira. Em todas as gôndolas, prateleiras e balaios, há apenas cinco marcas de produtos, todas estrangeiras e oriundas de um único país, o mesmo da rede do supermercado. Mandioca made in USA, queijo minas made in USA, rapadura made in USA, entre outros. O leitor fica indignado e procura o gerente: “Não adianta botar outro produto, o pessoal não compra”. Insistindo na própria liberdade de escolha, o leitor responde: “É claro que não compra, não tem na prateleira”. Com fina ironia, o gerente da multinacional conclui: “É só procurar, nas prateleiras lá em cima e lá embaixo, nós temos 0,5% de produtos brasileiros!”

Ao procurar um estabelecimento brasileiro, surpreso, o leitor percebe que somente as mesmas cinco marcas estão expostas. Fubá de Oklahoma e inhame do Kansas. Indaga a outro gerente que responde: “O pessoal não gosta do produto brasileiro, só das coisas gringas. Mas se o senhor fizer questão, temos uma prateleira, no segundo subsolo, com 6% de produtos nacionais. Fazemos até promoção”. Injuriado, o leitor corre para o velho e bom armazém de secos e molhados. E qual não será sua surpresa ao descobrir que eles se mudaram para os shoppings e que a maioria foi comprada por uma rede americana! Depois de pagar o estacionamento e de recusar inúmeras ofertas de pipoca em quilo e refrigerante em litro, o leitor vê prateleiras de feijoada enlatada diretamente do Kentucky. O gerente ainda explica: “Temos o maior respeito pelo produto nacional, mas ninguém quer. Fazemos promoção às segundas-feiras, tudo por R$ 1,00. Temos cerca de 9% de produtos brasileiros”. Cansado e furioso, o leitor sente que não adianta argumentar e vai para a feira livre. Para a sua tristeza, o que encontra nas barracas são apenas imitações – de origem e qualidade duvidosa – do que encontrou nos grandes atacadistas. Indaga a um feirante, que retruca: “O pessoal só quer saber de coisa gringa. É o que tem no supermercado.”

Ao substituirmos, nesta pequena fábula, a comida pelos produtos audiovisuais, a rede estrangeira pela da TV a cabo, a rede nacional pela TV aberta, o armazém pelos cinemas e a feira livre pelos camelôs, temos um exemplo da dura realidade da nossa cultura. Totalmente dominada pela indústria estrangeira, a distribuição da arte no Brasil deixou de atender à lei máxima do mercado: a oferta e a procura. Ao dominar o ciclo produção – distribuição – exibição, não mais do que meia dúzia de empresas multinacionais decide o que fará ou não sucesso no Brasil.

Os números citados não são aleatórios. O produto audiovisual brasileiro ocupa 0,5% do mercado de TV por assinatura, 6% do de TV aberta e 9% da programação dos cinemas. Na música cerca de 90% do que toca nas rádios – e do que é vendido nas lojas – provém dos estoques das multinacionais, sejam enlatados puros, sejam imitações de sua estética. Quanto a pertencerem a apenas cinco marcas, tampouco estamos brincando. No audiovisual, mandam: Warner, Buena Vista (Columbia), Fox, UIP e Sony. Na música: Universal, Warner, Sony/BMG e EMI. Se nosso leitor fictício fizesse uma busca na internet, procurando as composições societárias de tais companhias, descobriria que elas se cruzam em diversos pontos. Constataria também ligações entre elas e os supostos distribuidores – Cinemark, Sky, Net etc. Se fosse um pouco além, o leitor verificaria que a própria internet – suposta ilha de liberdade da pós-modernidade – também é dominada, tanto em seus provedores de acesso quanto nos de conteúdo, quase totalmente pelas mesmas empresas, em uma intrincada rede de fundos de investimentos, participações, acordos operacionais.

Vinte anos de ditadura ensinaram-nos a repudiar a censura. Ficamos com medo da ingerência do Estado sobre a criação artística. Lutamos bravamente para que o direito à livre criação e expressão seja mantido. Mas parece que, no afã de defender a liberdade do artista, acabamos por consolidar a liberdade de ação dos oligopólios estrangeiros. Nos anos de neoliberalismo, vimos a Embrafilme fechar as portas, as teles serem privatizadas, as cotas de exibição reduzidas, o financiamento à cultura ser entregue ao mercado e o capital estrangeiro ser autorizado a comprar 30% dos nossos meios de comunicação. Nos próximos dias corremos o risco de o Congresso Nacional autorizar as empresas multinacionais a dominarem 100% de nosso mercado de TV por assinatura.

Quanto ao sonho dos nossos filhos, se o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães - o nº 2 do Itamaraty - está correto ao afirmar que são as manifestações culturais as responsáveis por criar e interpretar o imaginário nacional, o que nos possibilita uma consciência enquanto Nação sobre o nosso passado, presente e futuro, o que estamos fazendo ao entregar à indústria cultural estrangeira o nosso imaginário? Nada mais, nada menos do que entregando a ela a nossa história, o nosso dia-a-dia e o nosso porvir. Os menos jovens têm uma alternativa: apegarem-se aos valores, convicções e ideais desenvolvidos antes do domínio absoluto das multis sobre o nosso imaginário. Os mais jovens têm pouca escolha. O seu imaginário está sendo praticamente todo construído de fora. Para ser mais exato, têm 0,5%, 6% ou 9% de liberdade. O american way of life penetra diariamente em suas mentes, cativa seu olhar, vicia seus ouvidos. Espera-se com isso que o pano de fundo de seus sonhos possua 50 estrelas e listras vermelhas e brancas. Em poucas palavras, que sonhem em inglês.

É possível reverter esse processo. Nossa cultura é produto da contribuição de povos do mundo inteiro. Mas a capacidade de absorção sem descaracterização tem limites. A cultura precisa de um tempo próprio – muito diferente do tempo da exploração da indústria cultural – para digerir e recriar. Precisamos de medidas claras e concretas que protejam nosso patrimônio e diversidade culturais, que nos permitam construir uma visão própria sobre nosso passado, viver plenamente nosso presente e construir soberanamente nosso futuro.


Valério Bemfica é presidente do Centro Popular de Cultura.

06 junho 2008

Receita para tornar o público privado






Seria esta a casa da mãe Joana?

Eu enfartei, mas não morri, nem fiquei bobo de vez.
Olha só o rebu que os chamados interesses maiores do Rio Grande poduziu hoje com as declarações das iminentes autoridades do Estado que acabam de enfiar pés pelas mãos e se desaforarem mutuamente, escancarando os esquemas ilícitos de produção de recursos para financiar e ressarcir gastos de campanhas para fazer amigos e influenciar pessoas nas eleições. Feijó terá sido abusado ao gravar e tornar pública conversa com o chefe da casa civil? Ou Busato, ex-bad boy atual bom moço, ousou além da conta, perguntando por preço do sujeito.
Foi-se o boi com a soga e atrás da vaca que já estava no brejo seco do Detran.
O secretário falou pelo governo, que o abusado é esperto de há muito.
Entenda o caso lendo aqui.

27 maio 2008

O mundo da fantasia do pai dos laranjas



Nova Bréscia é a cidade gaúcha que sedia o Festival Nacional da Mentira





O depoimento de Lair Ferst à CPI, ocorrido nesta segunda-feira (26/05/2008), foi precedido por uma forte estratégia de marketing pessoal.
Há seis meses sem falar com a imprensa, Ferst dedicou o domingo e parte da segunda-feira antes do início de seus depoimento para conversar amistosamente com profissionais escalados a dedo nos veículos de comunicação da RBS, a maior beneficiária das verbas de publicidade do atual governo gúcho.

Nas entrevistas ao jornal Zero Hora, à Rádio Gaúcha e ao Jornal do Almoço, o lobista antecipou qual seria sua postura na CPI. Negou tudo, de nada sabia.
Chegou a receber elogios jornalista Lasier Martins: “é um homem muito bem preparado”, comentou o advogado.

Pivô e um dos maiores beneficiários da fraude que desviou mais de R$ 44 milhões da autarquia, Lair contestou todas as acusações que pesam sobre ele. Mas a segurança demonstrada no início da audiência não resistiu aos questionamentos dos deputados. No decorrer do depoimento, as contradições apareceram:

A indicação da Fatec

O ex-presidente do Detran, Carlos Ubiratan dos Santos, disse que a Fatec foi contratada porque foi a única que preencheu os requisitos. Agora, Lair Ferst admitiu que indicou a Fatec para Carlos Ubiratan, seu amigo há mais de 30 anos. Depois de sugerir que o Detran contratasse a fundação, Lair virou funcionário da Fatec. Ele também admitiu que indicou as empresas Newmark Tecnologia e Rio Del Sur, de propriedade da sua família, para trabalhar para a Fatec. Alguém está mentindo.

A relação com Chico Fraga

Diferente do que afirmou duas vezes à CPI o ex-secretário-executivo da Fatec, Silvestre Selhorst, Lair Ferst negou que o secretário-geral de Governo da prefeitura de Canoas, Chico Fraga, tenha intercedido a seu favor quando o contrato do Detran com a Fatec foi rompido e a Fundae assumiu. Nesta troca, as empresas dos Ferst foram excluídas. Selhorst sustenta que Chico Fraga tentou negociar uma compensação para Lair Ferst que giraria em torno de R$ 120 mil por mês, isto é, 6% do valor do contrato entre a Fundae e o Detran. De novo, alguém mente.

A militância no PSDB

Lair disse que era um militante de base do PSDB. Entretanto, foi coordenador da bancada tucana na Assembléia, indicou um prédio para abrigar o comitê de campanha de Yeda Crusius e assinou como testemunha do contrato de locação do imóvel. Lair Ferst também admitiu que uma sala alugada pela Newmark foi usada para reuniões da chapa encabeçada pela deputada Zila Breitenbach para o diretório do PSDB. Desta chapa, que foi vitoriosa, também participou a governadora.

O chope com Culau

Contrariando Ariosto Culau, que negou ter tratado do caso Detran enquanto tomavam um chope, Ferst disse que o ex-secretário falou “que estava livre da força-tarefa dos contratos”. Ou seja, o assunto foi falado.

As empresas da família

Lair negou ser o verdadeiro dono das empresas Newmark Tecnologia e Rio del Sur e disse que tinha apenas uma “procuraçãozinha” destas empresas. O presidente da CPI, Fabiano Pereira, leu o teor do documento. “Representar, gerir e administrar todos os negócios, como comprar e vender mercadorias, comprar imóveis, pagar e receber contas, admitir e demitir funcionários, representar as empresas perante os bancos e contas correntes, representar as empresas diante todos os órgãos municipais, estaduais e federais, receber correspondências, assinar requerimentos e duplicatas.”.

Escancarado

“Não há dúvidas de que Lair Ferst foi um dos principais articuladores do esquema criminoso que agiu a partir do Detran. Só as empresas da sua família ganharam cerca de R$ 21 milhões. Isto é, dos 44 milhões desviados do Detran, metade foi destinada às empresas Ferst. E o Ministério Público de Contas concluiu que eles receberam estes milhões por um trabalho fantasma, que inexistiu”, apontou Fabiano Pereira.

Conforme a deputada Stela Farias, o movimento financeiro das empresas Ferst também atesta que Newmark e a Rio del Sur foram criadas exclusivamente para escoar a propina. Os laranjas Rosana Ferst, Elci Ferst e Alfredo Telles, respectivamente irmãs e cunhado de Lair Ferst, movimentaram somente 10% do total que ingressou nas contas. O resto, segundo a Polícia Federal e o MP, foi usado para distribuir a propina para os integrantes da quadrilha. “Além disso, Lair Ferst teve despesas pessoais, como viagens, planos de saúde, supermercado, veículos e cartão de crédito, pagas pela Rio del Sur, que também fez doação em dinheiro”, revela Stela Farias. Aliás, Chico Fraga e o prefeito de Canoas, Marcos Ronchetti, também fizeram turismo às custas da Rio del Sur.


Deputados aprovam prorrogação por 30 dias

A CPI do Detran aprovou por unanimidade o pedido de prorrogação dos trabalhos por 30 dias. A solicitação, agora, será encaminhada ao plenário da Assembléia Legislativa, que deverá ratificar o pedido da comissão.

Depois, a patrola vergonhosa

Após aprovarem o pedido para prorrogação dos trabalhos da CPI por 30 dias, os deputados que compõem a base do governo barraram a convocação de todos os nomes sugeridos pelo ex-secretário de Segurança, Enio Bacci, para depor na CPI.
Foram rejeitados os requerimentos para convocação do ex-corregedor do Detran, delegado João Carlos Weber; do ex-presidente da CEEE, Wilson Cignachi; do ex-cunhado do deputado José Otávio Germano, Leonardo Elesbão; e do ex-assessor do PP, Carlos Dirnei Fogaça.
A base de Yeda ainda negou a convocação do secretário-geral de Governo, Delson Martini, do ex-diretor do Detran, João Batista Hoffmeister, e do atual presidente da Fateciens – Fundação de Apoio à Tecnologia e Ciência, antiga Fatec.

Mais uma contradição

Para o deputado Elvino Bohn Gass, o comportamento da base do governo é contraditório. "Eles criticam a CPI e dizem que não houve avanços em relação às investigações da Polícia Federal e do Ministério Público. Mas quando queremos ampliar o trabalho, eles votam contra", afirmou Bohn Gass.

A deputada Stela Farias vai além. Ela entende que a prorrogação da CPI por mais 30 dias foi encarada pelos deputados da base governista como um pacote; eles aceitaram aumentar o prazo para os trabalhos da comissão, mas rejeitaram todos os requerimentos propondo que a CPI ouça novas testemunhas.

Presença de Fraga em reunião da propina é confirmada

Era para ser uma acareação, mas só o ex-secretário-executivo da Fatec, Silvestre Selhorst, compareceu à audiência da CPI na última quarta-feira (21/5). Apesar da ausência de Luiz Carlos Pelegrini, ex-presidente da Fatec, e Chico Fraga, secretário-geral de Governo de Canoas, Selhorst confirmou o que já tinha dito em seu primeiro depoimento à CPI: em reunião no dia 9 de maio de 2007, na Assembléia Legislativa, Chico Fraga se apresentou como interlocutor do governo estadual para tratar dos interesses de Lair Ferst, que estaria, naquele momento, sendo excluído do esquema que fraudava o Detran.

Buti é encurralado

Apesar de possuir um gabinete dentro do escritório de Carlos Dahlem da Rosa, um dos denunciados pelo MP como participante da fraude do Detran, o advogado Luiz Paulo Germano, irmão do deputado federal do PP gaúcho, José Otávio Germano, negou participação no esquema e sustentou que jamais teve sociedade com Carlos Rosa em seu escritório de advocacia. Buti, como é conhecido, negou, também, que tenha tido participação no contrato que Rosa mantinha com a Fatec e que rendeu para seu escritório R$ 5 milhões.

A deputada Stela Farias não acreditou na versão de Buti e apresentou uma folha do escritório em que constava o nome de Luiz Paulo entre os advogados societários. Ela mostrou, ainda, informações da página da OAB na internet em que o advogado indica o mesmo número de telefone do escritório de Carlos Rosa.

Stela apresentou outras informações com base nos documentos recebidos do Ministério Público Federal, que vinculam o advogado ao esquema fraudulento. Conforme o MPF, Luiz Paulo viajou em conjunto com outros denunciados para Goiânia e Brasília com as despesas pagas pelo projeto Trabalhando pela Vida, da Fatec. Ainda de acordo com o MPF, o advogado era um importante auxiliar de Flávio Vaz Neto na articulação dos contratos com a Fundae e as sistemistas e um interlocutor com quem o ex-presidente da autarquia compartilhava a elaboração das estratégias do esquema.



“Gostaria de saber quais são as empresas onde Lair Ferst
trabalha como consultor, recebendo R$ 15 mil por mês.
Afinal, ele já levou empreendimentos à falência e, segundo
José Fernandes, seu ex-parceiro no esquema Detran,
foi demitido da Fatec por incompetência”.
- Deputado Fabiano Pereira (PT), comentando a atual ocupação do indigitado.

publicado em http://deolhonafraude.blogspot.com

13 maio 2008

Os navios fantasmas da Quarta Frota

É o momento de amplificar o alerta de Socorro Gomes, presidente do Conselho Mundial da Paz: "O anúncio da recriação da Quarta Frota norte-americana, destinada a realizar missões navais agressivas nas regiões do Caribe, América Central e América do Sul é uma grave ameaça à paz, à segurança e à soberania de todos os povos e nações da América Latina".

Gilson Caroni Filho

Ao anunciar a reativação da Quarta Frota, desativada há 58 anos, para "patrulhar os mares da América Latina", a marinha estadunidense encena, em versão farsesca, a sina do capitão magistralmente criado por Wilhelm Richard Wagner, em 1841.

A diferença é que se o "Holandês voador" navegava eternamente por conta de maldição que só um amor redimiria, o que move os militares norte-americanos - e seus "navios fantasmas" - é a necessidade de retomar o controle de uma região que, por décadas, foi seu quintal seguro.

A nova constelação governos latino-americanos que, assumindo posições contrárias às do governo dos Estados Unidos, opõe-se à concessão de bases para as forças militares do Império, é o mar revolto a ser vencido. Se o personagem wagneriano tinha em "Senta" sua possibilidade de redenção, ao governo americano resta apenas Uribe como promessa de rendição.

Convém atentar para o que disse Alejandro Sánchez, funcionário de organismo de investigação do governo Bush: "Nos últimos anos os Estados Unidos se concentraram no Iraque e Afeganistão. Agora estão tentando voltar para a América Latina". Nesse ponto, um breve retorno a 2003 é indispensável

O que movia o cenário internacional podia, sem riscos de reducionismo, ser descrito em poucas linhas. O maior império da história, governado por uma "junta" oriunda do segmento petrolífero, precisava desesperadamente invadir o Iraque, ex-aliado no Oriente Médio, para se apossar de uma reserva estimada em 112 bilhões de barris. Às voltas com um crescente déficit público e uma produção doméstica de combustível que correspondia a 50% do consumo interno, ao governo americano parecia não haver outra alternativa que não fosse o uso de sua inconteste supremacia militar.

Os objetivos eram claros: "ouro negro" e controle político do Oriente Médio. A barbárie se anunciava com o mais portentoso apoio midiático de que se tem conhecimento. Das páginas do Washington Post ao jornalismo de campanha da Fox o que se vislumbrava era a disfuncionalidade da ONU como instância de regulação internacional. Os editoriais eram a crônica de uma guerra inevitável.

Tendo chegado ao poder em eleições marcadas por fortes evidências de fraude, George W. Bush, apoiado pela direita fundamentalista americana, é a expressão acabada de uma superpotência que, enfraquecida como projeto hegemônico, busca manter a supremacia pela truculência bélica e a chantagem econômica. Unilateralismo na política externa e a elisão de direitos civis são as duas faces da mesma moeda.

A chamada Lei Patriota, que criou o Departamento de Segurança Interna, deu à nova agência poderes para monitorar desde a ficha médica aos e-mails de pessoas contrárias à política governamental. A CIA não tem mais qualquer restrição legal para assassinar, em qualquer país, indivíduos que possam ser classificados como terroristas.

Política expansionista e Estado policial são a marca distintiva dos Estados Unidos desde o fim da Guerra Fria. Ante-sala do horror contemporâneo, a cruzada americana teve em seu aparelho propagandístico o pânico interno como dispositivo para construção do consenso.

O papel dos órgãos de imprensa, a maior parte controlados por grandes corporações, foi decisivo para a empreitada da política imperialista americana. Legitimaram, como nunca, a aventura no Oriente Médio. Não agem diferente no recorte simbólico dado às principais lideranças latino-americanas.

Sua maior colaboração residiu, como ainda reside, na capacidade de transformar em evento o que é processo, tirando da história qualquer possibilidade de apreensão dialética. Operam em restrita lógica binária, usando, para potencializar sua eficácia , o que Ignacio Ramonet classificou como "fascínio pelo espetáculo do evento".

Enquanto os jornalões brasileiros dão pouco destaque à nova ameaça, as forças navais estadunidenses preparam-se para, a partir de 1º de julho, "supervisionar as tarefas de suas unidades na América Latina e no Caribe."

É o momento de amplificar o alerta de Socorro Gomes, presidente do Conselho Mundial da Paz:

"O anúncio da recriação da Quarta Frota norte-americana, destinada a realizar missões navais agressivas nas regiões do Caribe, América Central e América do Sul é uma grave ameaça à paz, à segurança e à soberania de todos os povos e nações da América Latina. Recentemente, ao respaldar a ação militar da Colômbia em território equatoriano, o governo estadunidense intentou dar vigência em nosso continente aos pressupostos da guerra preventiva, uma doutrina fascista a serviço do terrorismo de Estado". O que os Estados Unidos anunciam é o fomento à militarização do continente, a corrida armamentista e a ameaça nuclear.

Para lidar com isso, além da vontade política das forças progressistas da região, é necessário restabelecer a agenda de uma nova ordem informativa como possibilidade contra-hegemônica. Talvez devêssemos recuar à década de 80 para resgatar projetos que a onda neoliberal varreu do cenário acadêmico-político dos anos subseqüentes.

O mais caro, sem dúvida, seria a retomada das discussões em torno de uma Nova Ordem Informativa. Mesmo levando-se em conta a mudança radical da configuração geopolítica existente à época e o surgimento de novas meios de produção, difusão e intercâmbio de dados, a atualidade do relatório produzido, em 1980, pela Comissão Internacional para o Estudo dos Problemas da Comunicação (a Unesco sediou os debates) é inconteste. Como não deixar de referendar as palavras do presidente da comissão, Sean MacBride, no prólogo do relatório?

"Gostaria de parafrasear H. G. Wells e dizer que a história humana se transforma cada vez mais numa corrida entre a comunicação e a catástrofe. O emprego total da comunicação é vital para assegurar que a humanidade venha a ter mais história (...) do que nossos filhos tenham futuro" (Um mundo e muitas vozes)"

É uma agenda inadiável.





Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador do Jornal do Brasil e Observatório da Imprensa.

04 maio 2008

A ver navios

Rosane Oliveira
Domingo, 04 de maio de 2008


Como usei o título acima na coluna de domingo em uma nota sobre o plano de trabalho do secretário José Francisco Mallmann, que quer transformar o Rio Grande do Sul em referência para o país na área de segurança nos próximos 10 anos, o delegado Wilson Müller Rodrigues, presidente da Associação dos Delegados de Polícia, mandou uma longa carta contando o que ocorreu com ele no fim de semana. Vou reproduzi-la na íntegra porque mostra no que resulta a carência de homens e de recursos materiais:



Prezada Rosane:



Destacastes em tua coluna de hoje, no tópico A VER NAVIOS, que “... A meta de Mallmann é transformar a segurança pública do Rio Grande do Sul em referência para o país nos próximos 10 anos.”

Em síntese, vou te falar do meu dia de ontem, que tem tudo a ver com o estado em que se encontram os serviços de segurança pública no Estado. Meu caso, por óbvio, não terá sido o único, no ítem “falta de atendimento”.

Por volta das 11h30m fui alertado, por um filho, que um estranho havia invadido a casa. Apanhei uma arma de uso pessoal e fui verificar. O intruso encerrou-se numa dependência, nos fundos. Efetuei um disparo de advertência e ordenei que saísse. Segundos depois ele saiu. Estava desarmado e não reagiu. Foi imobilizado. Até aí tudo bem. Afinal, sei tratar com situações desta natureza.

Liguei para o 190 e narrei à situação. Meia hora depois efetuei nova ligação. Algum tempo depois outra ligação. Nada. Telefonei para a Companhia da Brigada Militar de Ipanema, onde resido. Informei tudo novamente. O policial disse que o caso deveria ser tratado com a Unidade da Tristeza. Fiz, então, o quinto telefonema. O sargento que atendeu comunicou que tomaria providências.

Uma hora e meia após, o invasor, que informou ter saído fazia poucos meses do Presídio Central, continuava imobilizado. Nada de a Polícia aparecer.

Eu, a ver navios... O preso, já cumprindo pena na minha casa.

A família, inclusive uma neta de cinco anos, em pânico. Um ladrão imobilizado dentro de casa não é uma sensação agradável. Para mim nada de mais, todavia, para as “pessoas normais” é uma situação de pânico.

Acabei ligando para a Polícia Civil. Uma equipe de policiais veio buscar o ladrão. Foi autuado em flagrante, era sua quinta prisão, etc...

A viatura acionada pelo 190 chegou a minha casa às 15 horas, portanto 3h30m depois do primeiro chamado. Neste horário o preso estava sendo autuado.

Má vontade dos policiais em atender uma ocorrência desta gravidade ?

Absolutamente não. Em todos os telefonemas fui atendido com a maior cordialidade. Senti o constrangimento dos policiais em não poderem atender a ocorrência com presteza. Por uma questão de obediência hierárquica não informaram os motivos.

Soube, depois, que para o atendimento de toda a zona sul da cidade havia apenas duas viaturas, na manhã de ontem.

Creio que a governadora do Estado ainda não tenha sido informada, com exatidão, do estado de calamidade que se encontra a segurança pública.

Enquanto falta pessoal e viaturas para o atendimento de ocorrências rotineiras e urgentes, nosso ilustre secretário da Segurança fui a Rússia adquirir carros de combate para o trabalho policial.

Fala-se muito em programa estruturante, nova Polícia, referência para o país, etc ... Todavia, tudo para os próximos 10 anos. Este discurso é mais antigo do que o rascunho da Bíblia.

Enquanto isto, o cidadão comum sempre à espera de soluções simples e urgentes, que nunca vêm. O “outro lado do balcão” é muito desconfortável.

Em mais de 30 anos de função policial assisti alguns secretários de Segurança estabelecer programas destinados a reinventar a roda. Todos estes deixarem seus Governos a ver navios...

Um abraço cordial e obrigado pela atenção.

Wilson Müller Rodrigues.

06 abril 2008

A arte de desconstruir um governo e de construir uma ilusão

Ayrton Centeno

Zero Hora não produziu uma só manchete claramente questionadora de alguma política do Governo Yeda ao longo de três meses. Zero de crítica. Para o jornal, a administração Yeda ronda a perfeição, pouco importando que no mundo real arraste-se com um desempenho constrangedor. Já o Governo Lula padece nas manchetes de ZH, embora no mundo real obtenha a aprovação da grande maioria da população e a imagem do presidente seja ótima de acordo com todas as pesquisas de opinião.

Expostas nas bancas e nas sinaleiras, apregoadas pela publicidade em cartazes, rádio e TV, percebidas mesmo pelos mais desatentos, as manchetes de capa são o hall, o espaço mais visitado dos jornais. Mesmo quando apenas vislumbrado, captado num relance, pode-se dizer que seu enunciado se aloja, de algum modo, na mente de leitores e de não-leitores. Por conta desta alta visibilidade, sem a pretensão de ciência que não posso ter, resolvi, anotar e catalogar as manchetes de Zero Hora do último trimestre.

Sabe-se que, no jornal, a criação de manchetes de capa observa, num processo de defesa e ataque, alguns padrões de conteúdo. A barragem de fogo político e ideológico destina-se, quase sempre, ao Governo Lula. Sob o ataque das letras graúdas também costumam estar a base parlamentar do governo federal, os movimentos sociais, as propostas de superação da desigualdade, o Estado brasileiro, o próprio Brasil como um país fragilizado, indigno de confiança, os aliados do Governo Lula na América Latina, notadamente Hugo Chávez, Evo Morales, Fidel Castro, Rafael Correa. Aqui, tenta-se desconstruir o Brasil, Lula, seu governo, seus aliados, suas relações internacionais e seus projetos.

O afago benevolente vai para o Governo Yeda Crusius, o agronegócio, as papeleiras, o mercado e o Rio Grande. Aqui, ao inverso, a idéia é de construir o Grande Rio Grande mítico e empreendedor, cavalgando as propostas com o timbre do Piratini ou os planos de indústrias de se instalarem no Estado, muitas vezes montado apenas em intenções. Aqui, constrói-se uma quimera.

Alguém poderá dizer que não seria necessário dar-se a este trabalho já que a realidade nos informa disto suficientemente. Não deixará de ter certa razão. Mas custa apenas alguns minutos diários e uma dose de omeprazol para proteger as paredes do estômago. Além do mais, é bom escarafunchar estes escaninhos, saciar a curiosidade e perceber como se traduz em números e percentuais esta engrenagem de demolição e edificação de pessoas, partidos e poderes.

Provavelmente embalado pelo ócio de final de ano, comecei a registrar as capas sirostskianas no apagar das luzes de 2007, separando as manchetes em categorias. De pronto, descartei as vinculadas às investidas institucionais da RBS. No período, muitas capas de ZH foram dedicadas a si própria, ou seja, à agenda que implementou com sua campanha de trânsito. Neste movimento, os acidentes, as medidas das autoridades, as cifras de feridos e mortos são apropriados pela campanha e noticiados sob o logo e o slogan correspondentes. Coloquei de lado também àquelas que chamei de neutras. Somadas, as manchetes institucionais, auto-referenciadas, e as neutras são maioria absoluta no trimestre. São neutras - pelo menos dentro do proposto embora, de fato, nunca sejam neutras - geralmente as manchetes relacionadas às festas (Carnaval, Navegantes, Natal, Ano Novo), tragédias, meteorologia, ciência, polícia, esporte, etc.

Feita esta depuração e ajustando o foco apenas nas manchetes políticas, ou seja, aquelas que usam um determinado viés para gritar algo associado às disputas de poder na sociedade e que flagram como o veículo se posiciona diante destas mesmas disputas não obstante invoque o véu da imparcialidade, constata-se que 30,2% delas exploraram fatos negativos para o Governo Lula/PT/Aliados/Brasil, ao passo que somente 7,5% trataram de fatos positivos.

E, de inhapa, 7,5% das manchetes ainda abordaram negativamente fatos relacionados aos aliados latino-americanos do Governo Lula. Esta é a mão que apedreja. Em contrapartida, a mão que afaga acariciou o Governo Yeda/Aliados/Rio Grande com 40% das manchetes positivas e somente 12,5% das negativas.

Como as principais forças que comandam os dois governos são antagônicas, pode-se dizer que ZH prestou um serviço ao governo estadual e aos seus aliados, seja ao enfocar seus temas favoravelmente, seja ao enfocar desfavoravelmente seus adversários, ao publicar praticamente 80% de suas manchetes políticas. Desfavoreceu o Governo Yeda e seus aliados em 20% de suas manchetes.

O mais extravagante de tudo é que, excluídas as manchetes referentes às atribulações do pessoal do aprisco da governadora na CPI do Detran, ZH não produziu uma só manchete claramente questionadora de alguma política do Governo Yeda ao longo de três meses. Zero de crítica. De modo que, na avaliação do jornal, a administração Yeda ronda a perfeição, pouco importando que no mundo real arraste-se com um desempenho constrangedor. De outra parte, o Governo Lula padece nas manchetes de ZH embora no mundo real obtenha a aprovação da grande maioria da população e a imagem do presidente seja ótima de acordo com todas as pesquisas de opinião.

Este desligamento da realidade exterior a que Zero Hora se entrega – de resto, ao lado do PIG – desnuda um desejo de viver na fantasia autoproduzida. Um desejo legítimo, embora bizarro, se suas consequências se restringissem à pessoa física do dono do diário. O que parece anti-jornalístico e anti-democrático é usar um jornal - que pratica o marketing da pluralidade e da “vida por todos os lados” - para favorecer a visão de um lado só. Para, no limite, apresentar aos outros ficção como se fossem fatos. E fatos como se fossem ficção.

31 março 2008

Milícia do latifúndio assassina sem-terra no Paraná

A Coordenação Nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT)denucia assassinato , no assentamento Libertação Camponesa, município de Ortigueira, Paraná,ocorrido na noite de 30 de março. Dois encapuçados fuzilaram Eli Dallemole, liderança do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), na frente da esposa e três filhos.



Eli, 42 anos, era liderança do acampamento Terra Livre, na fazenda Compramil, em Ortigueira (próximo ao pedágio da BR 376), ocupada desde 2003. Há mais de dois anos, vinha recebendo ameaças de morte. No último dia 08 de março, aproximadamente 15 pistoleiros aterrorizaram as 35 famílias acampadas na área e queimaram todos os seus pertences. Crianças foram ameaçadas e arrastadas, e mulheres e homens espancados, ficando apenas com a roupa do corpo. As famílias expulsas foram acolhidas em assentamentos vizinhos.

Após o ataque, sete pistoleiros foram presos em flagrante pela polícia e levados à delegacia de Ortigueira. Desde então, as ameaças de morte contra Eli se tornaram mais freqüentes.

As famílias sem terra já vinham denunciando a atuação de milícias armadas na região, e haviam encaminhado denúncias à Secretaria Especial de Direitos Humanos do Governo Federal e à Polícia.

A Coordenação Nacional da CPT exige rápida investigação deste crime e a punição exemplar dos responsáveis pelo mesmo. Não é admissível que em pleno século XXI os instrumentos da barbárie ainda sejam utilizados contra os pobres do campo e que os proprietários da terra criem e mantenham milícias privadas para garantir propriedades que não cumprem sua função social como determina a Constituição Nacional.

A coordenação da CPT aproveita, ainda, para externar sua solidariedade à família de Eli e ao MST. Apesar de tudo, temos a certeza de que o sangue de Eli não foi derramado em vão. Está sendo semente de uma terra nova, pois ecoa em nossos ouvidos a palavra de Deus dirigida a Caim: "Ouço o sangue do seu irmão, clamando da terra para mim." (Gn 4,10)

Goiânia, 31 de março de 2008
Coordenação Nacional da CPT



Rogério Nunes
Assessoria de Comunicação
Comissão Pastoral da Terra
www.cptnacional.org.br

25 março 2008

Governo gaúcho deu "aval expresso" à fraude de 40 milhões

O ex-presidente do Detran gaúcho, Flávio Vaz Netto, indiciado pela Operação
Rodin da Polícia Federal, iniciou seu depoimento à CPI que apura fraude na autarquia acusando a governadora do Rio Grande do Sul.
Disse aos deputados que Yeda Crusius, atualmente em viagem ao exterior, deu "aval expresso" para a alteração sem licitação de empresas prestadores de serviços à autarquia.
Vaz Netto ainda qualificou de "deslealdade" e "covardia política" a exoneração dele pela chefa depois de ter sido preso pelos federais.
O homem não conseguiu explicar porque a gestão dele no Governo de Yeda substituiu, sem licitação, a Fatec pela Fundae como empresa responsável pelos exames teóricos e práticos para obtenção e renovação de carteiras de habilitação.
A troca aumentou o preço cobrado pelos serviços ao candidato à habilitação ou a motorista que vá renovar carteira.

compensação

Flávio Vaz Netto também disse à CPI que o secretário-geral do Governo de Yeda, Delson Martini, e o secretário-geral da prefeitura de Canoas,
Francisco Fraga, atuaram como interlocutores do Palácio Piratini no
troca-troca da Fatec pela Fundae.

Afirmou que na reunião com a governadora para tratar do assunto Francisco Fraga estava também no gabinete de Yeda sem ter sido levado por ele até lá.

Fraga teria aproximação com os interesses de Lair Ferst, arrecadador da campanha Yeda Crusius ao Palácio Piratini.

Vaz Netto confirmou que reuniu-se com Ferst, que teria contestado a substituição da empresa pestadora de serviços.

Flávio Vaz Netto presidiu a autarquia do início do Governo de Yeda até 6 de novembro de 2007, quando foi flagrado pela Operação Rodin da Polícia Federal

Responde ele por crimes de formação de quadrilha, fraude em licitações, tráfico de influência, sonegação fiscal, estelionato, peculato e corrupção ativa e passiva.

Foi indicado ao cargo pelo PP, sendo ligado ao ex-secretário estadual de Segurança, o atual deputado federal José Otávio Germano que tem um irmão numa lista de 39
indiciados pela Polícia Federal como responsáveis por esquema criminoso
que lesou os cofres públicos em mais de R$ 40 milhões.


Resta no ambiente da investigação parlamentar uma forte impressão de que Vaz Netto ainda não contou tudo o que sabe.